a manhã faz milagres? o problema dos horários

a manhã faz milagres? o problema dos horários
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esse assunto é um pouco polêmico – e talvez por isso eu o evitei por tanto tempo. mas, chegou a hora! essa semana, eu e nathalia de brito (@organizacaocontemporanea) lançamos o nosso podcast. e o primeiro episódio é justamente sobre o milagre da manhã! você pode escutá-lo aqui. esse texto vai complementar as ideias do podcast – se você ainda não ouviu, não tem problema. será possível compreender o texto por si só. se você, por outro lado, já ouviu o episódio – talvez esse texto seja um pouco repetitivo, pois, apesar de trazer novos insights, eu retomo algumas ideias ditas no podcast.

eu não li o livro “o milagre da manhã”, de hal elrod. muito menos os outros quatro livros desta franquia. você ficou chocado ao descobrir que já existe uma coleção de 5 livros? eu também.

por isso, esse texto não é uma resenha. é a primeira parte uma crítica tripla:

  • é uma crítica à ideia de que existem horários perfeitos e máximos, biologicamente determinados, para todos os seres humanos – sem considerar as condições sociais dos indivíduos (algo que está em alta no movimento da organização atualmente);
  • é, também, uma crítica à ideia de que existem receitas para o “sucesso”;
  • e, por fim, é uma crítica ao movimento 5 am club (que nasce inspirado em outro livro).

os horários perfeitos – um processo de negação

eu tenho percebido na internet um movimento de negação – seja do corpo e das características biológicas humanas, seja dos aspectos sociais e econômicos dos indivíduos e da sociedade em que se inserem. e isso vale para muitos temas. afinal, lidar com contradições e complexidades não é simples mesmo. porém, para o bem deste deste texto – e para evitar cancelamentos – vou focar apenas em como esse processo de negação está presente no mundo da organização e do desenvolvimento pessoal.

existem livros, de correntes de médicos e filósofos, que afirmam existir horários ideais para os seres humanos. esses horários são ou iguais para todas as pessoas (afinal, somos todos de uma mesma espécie e os nossos organismos apresentam as mesmas necessidades), ou são horários que variam de pessoa para pessoa (pois, mesmo sendo da mesma espécie, é possível categorizar as pessoas e entender o seu padrão de sono e produtividade).

de fato, temos características biológicas inatas e, até certo ponto, imutáveis – pelo menos até que nossa espécie evolua. acostumar-se a trocar o dia pela noite só é possível porque dominamos tecnologias para criar e manter os ambiente iluminados para isso. caso contrário, essa nem seria uma possibilidade. afinal, não possuímos visão noturna e faria pouco sentido manter-se acordado e ativo no escuro.

no entanto, nosso corpo se adapta às condições sociais nas quais vivemos. se você é do tipo de pessoa que tem dificuldade de ir ao banheiro fora de casa (se é que você me entende), é muito provável que o seu intestino tenha se adaptado para que você defeque antes ou depois do seu horário de trabalho – caso você trabalhe fora de casa. do mesmo modo, pessoas que precisam trabalhar no período noturno acostumam-se a dormir durante o dia.

o teste do cronotipo, por exemplo, indica a sua predisposição natural para sentir-se mais cansado ou mais produtivo em determinados horários do dia. no entanto, a nossa experiência cotidiana influencia nesses horários. conheço pessoas que “naturalmente” seriam mais produtivas à noite, mas precisam trabalhar em horário comercial. não tenho resposta para essa pergunta, mas acho que vale a reflexão: se você tem mais de 40 anos e trabalha em horário comercial desde os 18 – será que é possível responder às perguntas do teste e descobrir o que é mais natural para você? do mesmo modo, pergunto-me: não seria possível compreender os melhores horários para você apenas observando e entendendo a sua rotina? afinal, e pensando pragmaticamente, não é na sua rotina que você precisará implementar mudanças de horário para ter mais qualidade de vida?

acredito que seja necessário encontrar um equilíbrio entre o que entendemos sobre biologia humana e entre contexto social individual e subjetivo para falar sobre esse assunto com mais responsabilidade. pender a balança para um lado ou para o outro pode ser bastante prejudicial para a saúde mental das pessoas. podemos culpabilizá-las por não seguirem os horários “ideais” ou “naturais”. do mesmo modo, podemos não permitir que elas olhem de forma crítica para uma rotina completamente problemática, imposta pelo capitalismo, que nega o direito à saúde dos trabalhares.

autoconhecimento precisa vir junto de conhecimento.

até o próximo texto!

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