porque quantificar a vida é uma péssima ideia

porque quantificar a vida é uma péssima ideia
https://geee13.tumblr.com/

quantos passos você dá por dia? quantos minutos você se exercita por semana? quantas páginas você lê? quantas palavras você escreve? por quanto tempo você medita? quantas dessas perguntas sequer fazem sentido?

eu e a nat gravamos um episódio no nosso podcast negacionismo contemporâneo sobre isso que chamamos de quantificação de vida: a arte de não apenas transformar a vida em números mas em regras quantificáveis a serem seguidas.

talvez você frequente uma internet diferente da que eu frequento. mas, na internet onde eu habito, vez ou outra me aparecem postagens com dicas de produtividade quantificadas. quer ser mais produtivo? quer se desenvolver pessoalmente? quer alcançar “sucesso”? medite x minutos por dia. ou leia x páginas de um livro. ou escreva x palavras em um diário. ou faça x minutos de atividade física.

nesse texto, quero explorar alguns motivos pelos quais essa quantificação de vida é uma péssima ideia.

1 – porque a quantidade, muitas vezes, importa pouco

primeiro porque ninguém conta – e nem precisa contar – a quantidade de tudo que faz. seja a quantidade de páginas que leu em um dia ou a quantidade de minutos de uma atividade física. porque, no fim das contas, não é isso que importa!

quando acrescentamos um hábito na rotina, conscientemente, pensamos no benefício que esse hábito pode nos trazer. um exemplo pessoal para o caso da atividade física: há vezes que meu treino de muay thai dura quarenta minutos, há vezes cuja duração ultrapassa uma hora. o que me importa não é a minutagem ou a quantidade de flexões que eu fiz nesse tempo. pra mim, o mais importante é sair mais leve das aulas – e não perder nenhuma, para manter o hábito e o benefício que ele me traz!

podemos fazer um paralelo com alguns empregos. há dias em que somos obrigadas a trabalhar x ou y horas e nem sempre conseguimos fazer tudo que precisamos. da mesma forma, há dias em que o trabalho super flui – e entregamos mais do que havíamos planejado inicialmente!

do que importaria ler x páginas de um livro qualquer às cinco da manhã se você não está prestando atenção naquelas palavras? cada livro é um e demanda um tipo de atenção. ainda, o número de páginas não pode definir a qualidade da leitura de um livro. há poemas de menos de uma página que me tomariam dois minutos de leitura e dias de reflexão.

a quantidade traz uma sensação de controle – eu entendo. mas, antes de quantificar a sua rotina, vale se perguntar: qual é o sentido disso pra mim? o que eu procuro com isso?

2 – porque é materialmente impossível

quando eu uso a palavra material, aqui, digo da materialidade do dia a dia: quem tem casa para limpar, pais ou filhos para cuidar, trabalho pra fazer e matéria pra estudar não vai ter tempo para escrever diário da produtividade. o dia de todos nós tem 24h – mas algumas de nós tem muito, mas muito mais o que fazer. e nós não podemos terceirizar.

se formos colocar na ponta do lápis, esse dia quantificado duraria mais de 24h. ou, na melhor das hipóteses, duraria menos – mas não deixaria um respiro de espontaneidade. o respiro pra gente ler poesia em vez de prosa num dia. ou pra deixar de ler e assistir um episódio de uma série de comédia – porque, no fim das contas, é isso que você gostaria de fazer! respiro pra gente tirar um cochilo em vez de ir malhar, porque a última noite de sono foi muito complicada.

e em que hora do dia você vai fazer as contas? em qual momento você vai controlar as páginas lidas, os minutos meditados, os copos de água bebidos e os passos dados? em qual planilha você vai fazer esse registro? você quer um hábito e seus benefícios? ou é mais importante o registro visual e numérico?

isso também demanda tempo. e, além de tudo, tem nome: microgerenciamento. e só quem tem muito, mas muito tempo de sobra (por mais que eu não goste muito dessa expressão, acredito que ela sirva bem aqui) pode se dar ao luxo de se preocupar com isso.

3 – porque não é isso que vai te deixar rica

muitas postagens desse tipo pela internet divulgam os hábitos das pessoas ricas – como se existisse uma relação de causa e consequência entre uma rotina e o sucesso financeiro de alguém.

ao ler esses textos, temos a impressão de que também enriqueceremos se fizermos como o tal empresário – que acordar à tal hora, caminha por x minutos e lê x páginas de um livro depois do café da manhã. mas isso é uma mentira. em primeiro lugar porque não existe relação entre estes hábitos e o dinheiro na conta dessa pessoa. em segundo lugar, porque as condições materiais de vida do empresário permitem que ele desenvolva uma rotina que é diferente da nossa.

mesmo as pesquisas que envolvem hábitos são, por vezes, problemáticas. divulga-se que (vou inventar, viu?) pessoas mais ricas escrevem x palavras a mais que pessoas pobres – e desconsidera-se todo contexto social que existe em torno da questão. as pessoas mais pobres tem tempo para escrever? puderem desenvolver esse hábito ao longo da vida? em quais condições essa pesquisa foi feita? precisamos ler criticamente para não acreditar que escrever mais (usando o exemplo para ilustrar) nos enriquecerá.

4 – porque adoece

fazendo a costura: quantificar a vida adoece.

não existem hábitos mais ou menos morais, no sentido em que falamos aqui. não existem hábitos que te farão “merecedora” da riqueza e da fortuna que poucos tem. e não existe fórmula (inclusive, nesse caso, literalmente!) de enriquecimento.

acreditar que é possível seguir uma rotina ideal que te levará ao sucesso adoece.

a impressão que temos (alô, alô, ideologia) é de que é difícil mesmo e, por isso, precisamos persistir – pois só os melhores conseguem! apenas os mais capazes conseguirão seguir esta fórmula e alcançar tanto sucesso – e nada te impediria de ser uma dessas pessoas.

isso, no entanto, é uma mentira. o nosso sistema não funciona dessa forma e nossas ações individuais não são suficientes para garantir nossa ascensão social.

tentar seguir fórmulas quantificadoras de rotina é um caminho certo para o adoecimento.


espero não ter sido muito dura nesse texto. mas é um assunto que realmente me toca bastante! comenta aqui pra gente começar um diálogo sobre isso <3

Comments

No comments yet. Why don’t you start the discussion?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *