pare de se recompensar: a questão da artificialidade

pare de se recompensar: a questão da artificialidade
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essa é a segunda metade de uma reflexão sobre a prática de recompensar-se. no primeiro texto, conversamos sobre a relação entre recompensas e merecimento. você pode encontrá-lo aqui e não há ordem correta para a leitura, ok?

em primeiro lugar, quero deixar bem claro que ser artificial não é o mesmo que ser ruim. nem tudo que é natural é melhor. para pensar sobre o que é melhor ou pior, precisamos estudar os contextos sobre os quais falamos. dizer que algo é melhor ou pior baseado apenas no fato de ser natural ou artificial é simplista e raso -e, no fim das contas, não responde às nossas questões!

então, o que eu quero dizer com artificialidade?

1. técnica forçada

você já ouviu falar em alguma técnica cujo objetivo é fazer o seu cérebro entender que uma atividade que você considera chata é boa para você? já ouviu falar em como enganar o cérebro para realizar tarefas que você não quer ou não gosta de fazer?

é como se o seu cérebro não fizesse parte de você. percebe? é como se o seu cérebro fosse uma entidade superior cuja vontade própria vai contra os seus interesses.

se você precisa convencer o seu cérebro, talvez você não esteja convencida. e, se você não está convencida, talvez não o que você está se forçando a fazer não faça muito sentido. não seria mais inteligente procurar outras alternativas?

para ilustrar: em vez de insistir em técnicas artificiais para convencer o seu cérebro a gostar de ir para a academia (um hábito que você já tentou manter em outros momentos e sempre fracassou), que tal tentar praticar um esporte? que tal buscar uma outra atividade física? ou olhar para a sua rotina – quem sabe mudar o horário já te ajude manter o hábito! quem sabe deixar a roupa de ginástica separada no dia anterior já ajude. e isso não significa enganar o cérebro – isso significa mudar a sua relação com aquilo que você quer fazer.

pense em você, por inteiro – e não no seu cérebro.

(e, já que estamos falando nisso: essa é a relação que você quer estabelecer com o seu cérebro? a de enganá-lo? acho que vale repensar.)

2. falta de reflexão sobre o sentido daquilo que se pretende

se você está fazendo algo que faz sentido para você, fazê-lo deveria ser a recompensa! o próprio processo ou seu objetivo.

se você decide dedicar uma hora por dia a um projeto pessoal – é porque, provavelmente, este projeto faz sentido para você. a ponto de você dedicar uma hora de um dia provavelmente já cheio a ele. e fazê-lo deve ser recompensante por se só. chegar ao final de semana e ver que o seu projeto andou é recompensante. se não é, talvez não faça sentido o seu esforço. se não faz sentido… que tal repensar aquilo que você está se propondo a fazer?

se você precisa se recompensar por estudar – vale repensar os motivos pelos quais você estuda. aprender não é recompensa? entendo que nem sempre a gente estuda o que gosta e aprende o que quer. mas será que precisamos pensar em termos de recompensa? não podemos entender simplesmente que temos um objetivo que faz sentido e, para alcançá-lo, precisamos lidar com algumas coisas que nos desagradam? se tudo desagrada: o objetivo faz sentido? precisamos refletir!

jogar vídeo game o final de semana inteiro não deveria ser entendido como recompensa pelo seu esforço. é só descanso. e você não precisa merecer o descanso ou o lazer. por que você está transformando o que você gosta em recompensa? o que isso diz sobre o que você merece ou não? você só mereceria trabalhar?


você trabalha muito e recebe muito pouco. bora refletir: o quanto nos recompensamos porque nos falta reconhecimento? talvez a gente artificialize por isso: porque queremos ser reconhecidos. porque queremos ser recompensados pelo nosso esforço. e isso é do sistema.

termino o texto assim porque quero te abraçar.

porque quero que você entenda que existe um limite para o que você pode fazer. porque talvez o seu esforço não seja mesmo reconhecido no seu ambiente de trabalho. porque precisamos questionar o nosso dia de forma contextualizada. questione as suas estratégias e questione o sistema no qual você está inserida. se você fizer só o primeiro, você provavelmente vai se frustrar.

desculpe-se.

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