você não é uma empresa

você não é uma empresa
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parece óbvio, mas não é. se fosse, não estaríamos nos tratando da forma como temos feito. se fosse, não estaríamos dando palco para pessoas que promovem estratégias de gestão empresarial para vida pessoal.

por falar em gestão, hoje, enquanto assistia a um vídeo no youtube, apareceu para mim um anúncio que dizia sobre gestão das emoções. ele era direcionado para professores – e eu sei disso por conta da chamada realizada pela pessoa no vídeo.

eu acho engraçado como esses termos tem tomado conta do nosso dia a dia. não basta organizar e entender nossas prioridades, ritmos e níveis de energia ao longo do dia – é necessário fazer a gestão do tempo. logo mais, existirá a engenharia do cotidiano.

o que já existe – e me deixa com o sentimento de disappointed but not surprised – é o transplante de técnicas de administração de empresas para a vida pessoal. o livro essencialismo, cuja leitura eu não recomendei no último texto aqui do blog, é recheado de exemplos. mas podemos encontrá-los por todo lugar. se você frequenta a bolha do desenvolvimento pessoal e da produtividade na internet, você já deve ter esbarrado em alguém te sugerindo uma análise swot para a vida pessoal. ou, talvez, você tenha encontrado técnicas próprias de recursos humanos para utilizar consigo mesmo.

e, talvez, essas técnicas te apresentem resultados. quem sabe, podem servir como ferramentas de autoconhecimento. afinal, elas nos fazem pensar sobre nós mesmas com estrutura. e eu sou sempre a favor desse tipo de exercício.

no entanto, vale pensar: para onde elas te levam?

essas técnicas ou ferramentas próprias da administração de empresas tem por objetivo aumentar o lucro das empresas. a análise de swot, por exemplo, propõe uma estrutura de análise para que se possa traçar estratégias – e isso é incrível! para empresas.

o que significa pensar na sua vida com estratégia?

os sentidos e efeitos de metodologias ágeis para empresas são os mesmos que para vida pessoal? te garanto que não. o significado do tempo, para você, é um. para empresas, é outro.

não podemos gerenciar nossa vida pessoal da mesma forma como se gerencia uma empresa. porque nossos objetivos pessoais são outros. o objetivo final de uma empresa, por mais que esta empresa seja sua e você queira causar um impacto positivo no mundo, é lucrar. a nossa vida, enquanto seres humanos, é maior que isso.

podemos querer aproveitar o nosso tempo pessoal para lucrar? com certeza.

podemos querer aproveitar melhor o tempo no trabalho (e, aqui, vai depender muito do trabalho realizado por você) para ganhar mais dinheiro? claro.

e ter estratégias para isso com certeza nos ajuda a aproveitar esse tempo de maneira mais inteligente. mas a nossa vida não se limita a isso.

e mais: técnicas para aumentar a produtividade de uma empresa não necessariamente vão aumentar a sua produtividade. porque a produtividade de uma empresa se mede de uma forma, a sua, por outro lado, é medida de outra forma. tudo depende do que entendemos como produtividade.

nosso tempo tem sido capitalizado. quando não precisamos trabalhar de fato em nosso tempo livre, sentimo-nos pressionadas a realizar atividades que contribuam com a produtividade do tempo de trabalho. não nos permitimos ler literatura, porque deveríamos estar lendo um livro sobre finanças. não nos permitimos assistir um reality show, porque deveríamos estar assistindo a um documentário. nos sentimos “perdendo tempo”. mas o que significa isso? a quem a metáfora do “tempo é dinheiro” beneficia?

nosso objetivo, enquanto seres humanos, não é lucrar. por isso, não vale a pena pensar estrategicamente na vida tal qual uma empresa. guarde a análise swot, no máximo, para pensar sobre a sua carreira – caso queira utilizá-la em sua vida pessoal. e, se for utilizar outras técnicas e ferramentas do tipo na sua vida pessoal, eu sugiro que você o faça com cautela.

pergunte-se: como isso me ajuda? qual é a perspectiva de ser humano reproduzida por esse discurso? qual é o efeito disso na minha vida? o que significa interpretar-se como empresa?

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