sobre as mudanças impostas pelo mundo

esse é um texto pra mostrar como nosso controle individual sobre a própria vida é limitado – e indicar alguns caminhos para lidar com as mudanças cotidianas impostas coletivamente.

este não é um texto para falar sobre a pandemia, mas talvez ela seja usada como exemplo. porque ela impôs, de uma hora para a outra, mudanças no coletivo que nos afetam individualmente, dia após dia. existem outras mudanças que acontecem de forma mais gradual e sutil e só são percebidas entre gerações.

de todo modo: o mundo impõe mudanças.

para ilustrar:

no passado, era possível planejar a vida, porque existia alguma estabilidade possível no sistema capitalista. e essa estabilidade era desejada. hoje em dia, nem mesmo um cargo público é sinônimo de estabilidade. concursos públicos foram substituídos por processos seletivos. e aqueles que procuram por estabilidade são lidos como fracos, preguiçosos ou não-ambiciosos pelo sistema neoliberal.

as mudanças no sistema mudam a nossa forma de viver. e nos afetam no cotidiano.

hoje, as empresas tem equipes enxutas. e isso afeta o dia a dia das trabalhadoras. hoje, as empresas demandam funcionárias que vistam a camisa: e isso afeta o dia a dia das trabalhadoras.

a nossa rotina se relaciona intimamente com o sistema no qual vivemos.

e o sistema no qual vivemos hoje nos quer indivíduos que funcionam como empresas. e isso afeta a forma como a gente se organiza.

tenho percebido muito foco no planejamento em vez da organização. seja um planejamento de vida, seja um planejamento de projetos, seja um planejamento cotidiano: me parece que ele é o foco, e não a organização – que é a responsável por bons planejamentos. e isso, para mim, é sintomático de uma população que acredita ser possível controlar o futuro. ou que deseja fazê-lo. ou, talvez, que já se sinta individualmente responsável por seu futuro.

tenho percebido, da mesma forma, uma tendência para se olhar o micro. a vida se tornando um grande agora. tenho visto postagens no instagram que ensinam organização rasa que serve para um dia. “defina a prioridade do dia” – como se tivéssemos esse poder, e como se prioridades mudassem de um dia para o outro.

o mundo muda e isso afeta a nossa organização e também o mercado da organização.


eu tento estudar para entender as minhas limitações. eu faço análise para entender as minhas limitações. eu consumo arte para entender as minhas limitações. eu me organizo para entender as minhas limitações. e assim, enxergo as minhas potências também.

para lidar com este contexto neoliberal que não me permite criar planos firmes de longo prazo: foco em construir hoje uma pessoa da qual eu vou me orgulhar de ser amanhã. foco em planos mais abstratos que tenham a ver com quem eu sou.

para lidar com mudanças impostas de uma hora pra outra: tento perceber os meus contextos e alinhar a minha rotina às minhas prioridades.


a gente não vive no vácuo.

o mundo ao nosso redor nos afeta. e nós somos indivíduos do nosso tempo.

o mundo ao redor afeta a nossa organização pessoal. e nossa organização pessoal só existe como existe porque está inserida em determinado contexto.

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