sobre constância e tempo

vou abrir meu coração: eu me culpo bastante.

hoje, um tanto menos. e um tanto diferente. parte do meu processo de análise passa por entender essa culpa. eu tento olhar para a materialidade para compreender até onde vão as minhas responsabilidades – só assim eu consigo deslocar a culpa, compreendê-la de outro lugar e com outros olhos. e isso significa também, de algum modo, olhar para o tempo. e construir parâmetros a partir do tempo.

acho que não falamos o suficiente o quanto o tempo nos edifica e edifica as mudanças que a gente constrói. às vezes, uma chavinha vira dentro de você – mas, fazê-la virar no dia a dia demanda… dia a dia. dia. mais dia. e mais tantos outros incontáveis dias! até que você diga: mudei. e as pessoas ao seu redor digam também: mudou.

vou ilustrar:

eu parei de comer carne em 2013. não me lembro bem o mês. sei que, depois de uma festa, eu comi uma lasanha com presunto (feito de cadáver) e eu me dei conta: nunca mais vou comer carne. nunca mais vou me alimentar de cadáveres. desde então: não como carne. naquele momento, eu já sabia que eu era vegetariana. quase dez anos depois, sigo vegetariana: porque fui constante ao longo do tempo.

talvez este não seja o melhor dos exemplos, mas é talvez o mais simples – porque é muito cotidiano.

tenho ficado um pouco chocada com a forma com a qual temos desrespeitado o tempo. eu não assisti o último bbb, mas eu tenho internet e sei que rolaram algumas polêmicas envolvendo a karol conka. quando liguei na globoplay outro dia, lá estava: um documentário da cantora, chamado “a vida depois do tombo”. e eu achei muito curioso este nome porque sequer haviam passados três meses de sua saída. esse tempo é suficiente pra digerir as mudanças? pra decidir gravar um documentário? pra efetivamente gravá-lo e editá-lo?

algumas mudanças levam meses ou anos para se efetivarem na vida cotidiana – por mais que todas as chavinhas para que elas se materializem já tenham sido viradas dentro de você.

e isso serve para dizer que: se você decidiu se organizar mas saiu da linha por um dia ou uma semana – NÃO TEM PROBLEMA! tente olhar com perspectiva: você está no começo do caminho. do mesmo modo, se você decidiu se dedicar aos estudos mas teve um dia ruim: entenda, um dia ruim só é um dia ruim. não é um sinal de que você é um fracasso ou de que você não conseguiu se dedicar aos estudos. para afirmar isso: no passado, eu não consegui me dedicar aos estudos, você precisaria de anos como referência. percebe? um dia não é suficiente.

mais uma ilustração: eu sempre tive muita dificuldade para organizar dinheiros. hoje, eu sei tudo que entra e tudo que sai. mas eu tive que começar lá em 2017 – tentando anotar os gastos cotidianamente. não tinha o melhor investimento e nem uma planilha elaborada: mas comecei de algum lugar. hoje, tenho dificuldade para organizar meu dinheiro enquanto autônoma & empresária – mas é claro! nunca fui autônoma e empresária na vida! preciso descobrir. e descobrimos tentanto, errando e acertando. e isso demanda: tempo.

se a gente não começa, a gente não caminha. ou, pelo menos, não caminha pelos caminhos que a gente tem condição de escolher. se a gente não caminha, não chega. e caminhar demanda passos. demanda tempo. você não pode se teletransportar para o topo de uma montanha, bem como não pode se teletransportar para a realidade em que você é tudo-que-gostaria-de-ser sem trilhar o caminho para chegar lá.

não se constrói uma casa sem construir suas paredes. e muito menos se instala um telhado numa casa sem paredes. uma casa sem paredes não é uma casa. e, se você nunca construiu casas, é provável que suas primeiras construções sejam meio zoadinhas mesmo. e isso vale para todas as áreas da vida.

a gente se culpa menos quando tem o tempo como parâmetro.


respeite o tempo. respeite o seu processo.

comece. caminhe.

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